Sexta Feira, 08 de Agosto de 2008
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» Viajando... por Braga, terra de Arcebispos




Nesta segunda edição do “Viajando”, pretendemos guiar o leitor por uma cidade que se caracteriza pelo valioso espólio arquitectónico de carácter religioso, dada a sua importância como local de concentração de bispos e arcebispos, desde o Século XI até à actualidade.





Breve resumo histórico

Os primeiros vestígios de ocupação humana nesta região remontam ao período megalítico. Também nesta zona, conservaram-se até aos nossos dias inúmeros vestígios da Idade do Ferro, nomeadamente os “Castros”, que eram locais fortificados nos pontos mais altos do relevo.

O processo de romanização iniciou-se por volta do ano 200 A.C., com a fundação da primeira cidade, denominada Bracara Augusta, que se tornou na capital da Galécia, constituida pela Galiza e pela provincia do Minho, e rapidamente floresceu como centro de cultura cristã.

Com a invasão dos árabes, acabou por ser destruida no século VII , ressurgindo apenas por volta do ano 1070, pela mão de D. Pedro, primeiro Bispo de Braga, com a reorganização da Diocese, e a construção da Catedral, sagrada em 1089. Desde então, os arcebispos bracarenses foram os verdadeiros senhores desta região, onde se destacou D. Peculiar (um dos que mais contribuiu para a independência de Portugal) e também D. Nuno Alvares Pereira.

No período correspondente à época dos Descobrimentos, vive-se em Braga um fervoroso clima de religiosidade, patente na afluência de comunidades religiosas, que vão construir Mosteiros, Conventos e Igrejas, apagando sucessivamente os edificios de traça romana.

No século XVIII, Braga ressurge e brilha com as curvas do Barrôco, e que lhe conferiram um legado excepcional. No final deste século, assiste-se à transição para o Neoclássico.
As invasões francesas e as lutas liberais no Séc. XIX, trouxeram focos de conflito e destruição. Contudo, graças ao investimento dos emigrantes regressados do Brasil, a cidade de Braga rapidamente refloresce com construções influenciadas pela arquitectura do outro lado do atlântico.

Nos ultimos anos, têm se verificado um grande desenvolvimento a nível urbanistico e de infraestruturas rodo-ferroviárias, que permitiu aproximar Braga das principais cidades portuguesas, a nível de qualidade de vida.

No âmbito deste desenvolvimento, há que destacar a evolução da rede de transportes em Braga.

- Em 1882, com a construção do Elevador do Bom Jesus que liga a cidade ao santuário (ainda hoje em funcionamento e do qual falaremos em pormenor mais adiante), é criada uma linha de caminho de ferro a vapor, que ligava o centro de Braga com a entrada para o funicular. São dados os primeiros passos na criação dos transportes publicos.

- Em 1914, começam a circular os primeiros carros electricos, substituindo o comboio a vapor. São criadas duas linhas: uma do Monte d’Arcos à Ponte de S. João, e de Maximinos ao Bom Jesus do Monte. Como curiosidade, o sistema de alimentação dos eléctricos era inverso ao habitualmente utilizado nas redes de eléctricos: a linha aérea estava ligada ao pólo negativo, enquanto que os carris estavam ligados ao pólo positivo, o que provocava consumos de energia elevados.

- Em 1961 começam as primeiras experiências com troleicarros em Braga, com a intenção de substituir os carros eléctricos. Devido à particularidade da instalação da rede dos eléctricos, a primeira experiência feita com um troleicarro foi desastrosa, pois este recebeu uma anormal descarga eléctrica de 1400 Volts, que danificou irrecuperavelmente essa viatura. Corrigidas as falhas, é então inaugurada a rede de troleicarros em 1963, que veio a operar até 1979, altura em que os troleicarros são substituídos por autocarros.

- Em 2000, os Transportes Urbanos de Braga voltam a fazer história, com a aquisição de novos autocarros ecológicos, movidos a Gás Natural e Híbridos (diesel + electricidade), que se traduzem numa diminuição dos níveis de poluição e ruído, e a consequente melhoria da qualidade de vida dos bracarenses.


Roteiro

Passemos agora ao roteiro propriamente dito, orientado para que o viajante o possa fazer apenas num dia, mas que permita visitar os locais mais relevantes desta cidade repleta de património histórico.

Sendo o objectivo do Transportes-XXI, a dinamização e divulgação dos Transportes Públicos, será dada preferência ao uso destes meios de transporte.

Há várias formas de se chegar a Braga. Para quem se desloca do sul, aconselhamos o comboio, por considerarmos um meio de transporte rápido, confortável e económico. Existem serviços suburbanos com partida do Porto com bastante frequência horária, pelo que sugerimos a visita ao site http://www.cp.pt/ para consultar qual o horário mais vantajoso. Para quem vem de mais longe, ou então procura uma viagem mais confortável, pode optar pelo serviço “Alfa Pendular”, um pouco mais caro que o serviço suburbano, mas no entanto mais rápido  e cómodo.

Considerando o domingo como exemplo para este roteiro, sugerimos a viagem no comboio urbano com partida às 8:36 da estação de Campanha e chegada às 9:42 a Braga. À chegada à estação de Braga, deparamos com uma estação moderna, fruto da profunda renovação que recebeu recentemente, em conjunto com a electrificação da linha férrea, que encurtou significativamente os tempos de viagem entre Braga e a cidade do Porto.

Começamos assim o nosso passeio, com uma visita ao santuário do Bom Jesus do Monte. Saindo da estação, dirija-se à paragem de autocarros mais próxima, e siga na carreira 02, com destino ao Bom Jesus. Sugerimos a visita ao site http://www.tub.pt para consultar os horários e outras informações de interesse relacionadas com o operador de transportes públicos de Braga. Aproveite a viagem, com uma duração aproximada de 40 minutos, para apreciar de relance a cidade no seu trajecto.

Chegado ao lugar do Pórtico, fim da carreira 02, estamos no sopé do monte. Espera-nos uma viagem no Elevador do Bom Jesus, que nos irá transportar numa íngreme subida até ao santuário. Inaugurado em 1882, o Elevador do Bom Jesus é actualmente, o mais antigo do mundo a utilizar o sistema de contrapeso de água como meio de locomoção, e em pleno estado de funcionamento. Com mais de 120 anos de actividade sem sofrer qualquer acidente, o Elevador do Bom Jesus constitui hoje em dia um dos mais notáveis exemplares do património industrial e técnico em Portugal. A duração da viagem pode variar entre os 2 minutos e meio e os 4 minutos, e a sua frequência é de 30 em 30 minutos.

Considerado como a maior atracção turístico-religiosa da região, o Santuário do Bom Jesus do Monte afirma-se como uma referência obrigatória do barroco europeu, que evidência a própria evolução da arte bracarense. A obra, desenhada pelo arquitecto Carlos Amarante, por encomenda do Arcebispo D. Gaspar de Bragança, começou a ser construída em 1784, ficando concluída em 1811. A fachada é ladeada por duas torres e termina num frontão triangular e o interior tem planta de cruz latina.

O adro da Igreja apresenta 8 estátuas, que representam personagens intervenientes na condenação, paixão e morte de Cristo.

A cerca de 2 kms, encontra-se o santuário de Nossa Senhora do Sameiro, também ele um belíssimo conjunto arquitectónico monumental, que conserva uma devota imagem trazida de Roma em 1880. Uma vez que este roteiro está planeado para apenas um dia, a visita a este Santuário ficará para uma outra alternativa.

Uma vez visitado este belo monumento, é altura de regressar à cidade. Contudo, sugerimos que faça o percurso inverso a pé, pelo majestosa escadaria que vai do santuário até ao pórtico. Construída entre 1629 e 1722, esta escadaria caracteriza-se pelas suas capelas evocativas dos diversos passos do Calvário de Cristo. Aproveite para desfrutar da belíssima paisagem entre o frondoso arvoredo que ladeia o Santuário. Caso pretenda se deter pelo parque, há uma variedade de actividades onde para além da mata, convidativa para piqueniques, pode ainda encontrar jardins, vários lagos artificiais com barcos para alugar, um campo de ténis, um jardim infantil, bem como diversos estabelecimentos hoteleiros e de restauração.

Chegado ao ponto mais baixo da escadaria, tome novamente o autocarro 02 no sentido do centro de Braga. Saia na Praça do Conde Agrolongo, e aproveite para almoçar num dos diversos restaurantes da zona histórica. Como especialidades gastronómicas locais, recomendamos as Papas de Sarrabulho, os Rojões e também as Pataniscas de Bacalhau, acompanhados dos melhores vinhos verdes da região. Na doçaria regional, destaque para o Pudim à Abade de Priscos, o Creme Queimado ou ainda as Cavacas.

Terminado o merecido repasto, espera-nos agora mais uma viagem de autocarro, com destino ao Mosteiro de S. Martinho de Tibães. Siga até à Av. Visconde de Nespereira, junto à Praça Conde Agrolongo, e tome o autocarro 11, no sentido do Sarrido / Padim da Graça. Aconselhamos que tome o autocarro com saída da praça às 14:50, pois o próximo só parte às 17:15 (horários de Domingo).

A viagem tem uma duração de cerca de 25 minutos. Deverá sair na paragem da rotunda do mosteiro, para depois efectuar um curto trajecto a pé até ao majestoso edifício.

Fundado no final do Século X e reconstruído no ultimo terço do Século XI, o Mosteiro de Tibães recebeu diversas transformações graças ao apoio real e à concessão de Cartas de Couto, transformando-se num dos mais ricos e poderosos mosteiros de Portugal. O seu aspecto geral actual, remonta ao Séc. XVIII, e caracteriza-se pelo esplendor e magnificência das suas grandes proporções.

Após ter sido vendido em hasta pública em 1864, o Mosteiro de Tibães e toda a área envolvente de 40 hectares entraram em declínio e ruína. Só em 1986, com a passagem a propriedade do Estado, de imediato se procedeu à elaboração de um projecto de recuperação. Para além da abertura ao culto da igreja, prevê-se a refundação da comunidade religiosa, a criação de um Museu, e a viabilização de um Centro de Estudos, tendo em conta a importância deste mosteiro na rota beneditina portuguesa.

Graças às obras de restauro, o Mosteiro de Tibães encontra-se actualmente visitável na maior parte dos seus espaços conventuais.

Terminada a visita a este deslumbrante conjunto arquitectónico, tomemos o autocarro de regresso ao centro de Braga. Pelas 17:40, o autocarro da carreira 11, volta a passar na paragem da rotunda do mosteiro, no sentido de Braga, prevendo-se a sua chegada às 18:10 à Praça do Conde Agrolongo.

Retomemos agora o nosso trajecto pelo centro histórico, que reúne um valioso património arquitectónico e arqueológico, desde o edifício erudito e religioso, à casa da mais pura traça popular.

No centro da zona histórica, encontramos o Paço Episcopal, composto por três corpos de características e épocas distintas. A ala nascente em estilo gótico, voltada para o Jardim de Sta. Bárbara, remonta ao Século XVI; a ala poente, em estilo tardio barroco, foi erguida no Século XVIII; enquanto que a ala Sul, que define o belo Largo do Paço, integra edifícios mandados construir por diferentes arcebispos entre os Séculos XVI e XVIII.

A poucos metros de distância, a Sé Catedral merece uma visita mais atenta pela sua riqueza histórica e cultural. Erigido em 1093, este ex-libris fundamental da história de Braga, reúne os mais diversos estilos arquitectónicos, desde o Românico ao Barroco, passando pelo Gótico de diferentes fases e inspirações, congregando belíssimas capelas e um excepcional tesouro.

Este edifício, caracteriza-se pela escultura religiosa manuelina, que se encontra expressa no seu altar-mor e na pia baptismal. Ao fundo das naves encontra-se o Coro Alto, visível em todo o percurso de visita ao Tesouro da Sé. 

Em frente ao Coro Alto encontramos dois órgãos que ainda hoje funcionam. Um dos órgãos possui 2400 tubos, alguns mergulhados em água, e produzem um som idêntico ao cantar dos rouxinóis.

No curto percurso que separa o centro histórico da estação, aproveite ainda para ver o Arco da Porta Nova, outro ex-libris da cidade, construído no Séc XVIII e que associa o Barroco ao Neoclássico. Situado junto à porta da muralha, era o local onde por tradição se procedia à entrega das chaves da cidade.  

Passado então o Arco da Porta Nova, damos por terminada esta nossa viagem. É altura de regressar à estação de Caminhos de Ferro, para a viagem de regresso.


Por: Ricardo Taveira
Actualizado em Agosto de 2006

 



Além deste artigo, encontra-se também disponível o "Viajando" de Janeiro de 2006, subordinado ao tema "Viajando... pelo Douro". Clique na apresentação para aceder.





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