Sexta Feira, 08 de Agosto de 2008
» Viajando... pelo Douro


 
Nesta primeira edição do “Viajando” propomos um cruzeiro de barco pelo rio Douro, desde o Cais de V. N. De Gaia até à cidade do Peso da Régua. Neste cruzeiro haverá também a visita às caves da Quinta do Castelinho, onde é armazenado e tratado não só o internacionalmente afamado Vinho do Porto, como também outras produções de excelente qualidade mas de consumo mais frequente. O regresso desta maravilhosa viagem até à cidade do Porto, processa-se de comboio, pela linha do Douro.

 
Estes cruzeiros fluviais estão disponíveis praticamente todo o ano, e há vários operadores turísticos a disponibilizarem diversos pacotes de viagens, que vão desde a simples viagem num barco rabelo sob as 5 pontes que ligam o Porto a Vila Nova de Gaia (Arrábida, D. Luiz I, Infante, Dª Maria Pia, S. João e por último Freixo), até ofertas mais elaboradas que podem-se prolongar por 8 dias, em barcos hotel. Sugerimos a visita ao site do operador turístico Douro Azul para conhecer todas as possibilidades que tem ao alcance de visitar esta tão bela região que é o Douro.

No entanto, neste roteiro apenas iremos abordar o itinerário Porto – Régua - Porto, que tem a duração de um dia.
O embarque e o respectivo “check-in” dos passageiros, faz-se pelas 09:00, no cais fluvial de Gaia. Contudo aconselhamos que chegue pelo menos com meia hora de antecedência, a fim de poder preparar com o seu devido tempo e com toda a tranquilidade o seu passeio.

Pelas 09:30, o barco sai do cais de Gaia, dando início então ao cruzeiro. Poucos metros acima do cais, passamos por debaixo da ponte rodo-ferroviária D. Luiz I. Esta ponte foi até 2003 exclusivamente rodoviária, e caracteriza-se por ser uma ponte com dois tabuleiros. O tabuleiro do piso superior foi totalmente reconstruído, para permitir a circulação das composições do Metro do Porto, com a finalidade de unir por este meio de transporte as cidades do Porto e Gaia. Aliás, a intervenção na ponte D. Luiz I não se limitou apenas ao tabuleiro superior. A fim de poder oferecer todas as condições de segurança a este novo meio de transporte, a centenária ponte, projectada no final do Século XIX por Teófilo Seyrig, viu ser substituída quase 60% da sua estrutura sem que, no entanto, fosse alterado o seu aspecto.

Continuando o nosso cruzeiro, atravessamos a moderna ponte do Infante, construída para poder desviar o trânsito que circulava no tabuleiro superior da Ponte D. Luiz I após o seu encerramento ao tráfego automóvel.
Mais adiante encontramos a bela ponte D. Maria Pia, que em muitos aspectos se assemelha com a ponte D. Luiz I, e não admira, pois o arquitecto que projectou esta ponte foi o célebre Gustavo Eiffel, e que também foi membro da equipa de Teófilo Seyrig.
Esta ponte, inaugurada em 1877, era exclusivamente dedicada à ligação ferroviária entre Lisboa e o Porto. Com a inauguração da Ponte S. João (que se encontra a poucos metros de distância desta) e consequente abertura ao tráfego ferroviário em 1991, a velhinha D. Maria Pia deixou de receber os comboios a partir dessa data. No entanto é alvo de ligeiras operações de manutenção, e encontra-se em estudo o seu reaproveitamento para ser utilizada como ciclovia.
A última ponte que cruzamos é a também moderna ponte do Freixo, criada para servir como alternativa rodoviária à caótica Ponte da Arrábida, e assegurar as ligações ao Sul por Auto-Estrada, pelo IP1.

Não poderíamos deixar de mencionar o belo palácio do Freixo, que foi recentemente recuperado e onde se encontra também o museu da imprensa.
A partir deste momento é servido o pequeno almoço no piso inferior do barco, enquanto este vai percorrendo as margens do Douro, por entre encostas verdejantes e algumas praias fluviais.

Depois de cerca de uma hora de viagem passada, eis que chegamos à barragem de Crestuma-Lever, a mais recente barragem do Douro, construída em 1985. O atravessamento desta barragem é feito através de uma eclusa, que funciona como uma espécie de um “elevador de água” que sobe a embarcação em 14 metros até se chegar a área superior da barragem. O ultrapassar das eclusas é um dos momentos mais marcantes deste cruzeiro. Aqui as embarcações permanecem durante cerca de 20 a 30 minutos inactivas e uma estranha sensação de claustrofobia assola a maioria dos passageiros, ante a imensidão das paredes de betão, enquanto lentamente se vence a diferença do desnível das águas a montante e a jusante da barragem.
Uma vez vencida esta obra da engenharia hidroeléctrica, a embarcação segue a sua viagem e na margem esquerda do rio podemos observar uma outra forma de produção de energia, desta vez pela central termoeléctrica da Tapada do Outeiro. Esta central utiliza desde 1998 o gás natural; no entanto até essa data, essa central era alimentada pelo carvão oriundo das minas do Pejão, situadas na outra margem do rio, e também das minas de São Pedro da Cova, também estas já extintas. O transporte do carvão era efectuado através de um teleférico que atravessava o rio e onde era transportado o carvão em pequenos “cestos” metálicos para a central.

São 11:30, e começam a ser servidos os aperitivos aos passageiros, para logo de seguida ser servido o almoço no piso inferior do barco. A viagem continua calma e serena, e mesmo durante o repasto podemos ter o prazer de ver das amplas janelas da embarcação a paisagem ainda influenciada pelo clima litoral.
Entretanto a embarcação passa junto à localidade de Entre-Os-Rios, onde em 2001, no seguimento de um temporal, se deu uma catástrofe onde ruiu a centenária ponte Hintze Ribeiro, e onde caiu um autocarro, tendo ceifado a vida a cerca de 60 pessoas. No local do acidente, hoje existe um monumento que evoca a tragédia e que consiste num conjunto escultórico com 20 metros de altura, constituído por um pedestal de betão, pintado de branco e um anjo em bronze, com doze metros de altura. Na base do monumento estão inscritos os nomes das 59 vítimas do acidente. Actualmente já existe uma nova ponte que une os concelhos de Penafiel e Castelo de Paiva e que foi construida de raiz, praticamente ao lado da ponte que ruiu.
Também já pronta e aberta ao trânsito, está a ponte do IC36, que actualmente pouca ou nenhuma utilidade tem, embora no futuro será de grande utilidade para o vale do Sousa, quando estiver construída a via rápida que ligará a cidade de Penafiel à vila de Castelo de Paiva, aproximando mais estas localidades dos grandes eixos viários.

Terminado o almoço, os viajantes deslocam-se então para a área superior da embarcação onde poderão desfrutar da paisagem. Poucos quilómetros acima de Entre-Os-Rios, encontramos dois pequenos cais fluviais, do lado esquerdo o cais de Bitetos e do lado direito o cais de Escamarão. O cais de Bitetos é ponto de ancoragem de alguns cruzeiros que incluem a visita de autocarro ao convento de Alpendurada, mas que infelizmente não está contemplado neste roteiro.  O cais de Escamarão é utilizado mais como ancoradouro de barcos de extracção de inertes e também serve como depósito para esses mesmos inertes. Visível na margem do lado esquerdo, o convento beneditino de Alpendurada, cuja construção remonta ao Século XI, foi totalmente recuperado e hoje é um hotel onde o viajante pode repousar num ambiente calmo e acolhedor, e onde a vista panorâmica do Rio Douro transmite sensações de bem estar e tranquilidade. Para mais informações, sugerimos a visita ao site http://www.conventoalpendurada.com/ .

Continuando a nossa viagem, e após cerca de 4 horas a zarpar sobre o rio, encontramos a Barragem do Carrapatelo, construída em 1971 e que se caracteriza por possuir a eclusa mais alta da Europa, com um desnível de 35 metros. Durante cerca de 30 minutos, podemos apreciar todas as manobras que caracterizam a eclusagem, e onde mais uma vez se sente uma certa claustrofobia, ainda mais evidente nesta barragem.Uma vez transposto este “obstáculo”, a viagem continua rumo ao nosso destino, que é a cidade do Peso da Régua. A paisagem vai conservando o cenário bucólico que caracteriza esta belíssima região, com as tradicionais e humildes habitações em granito a contrastarem com belíssimos palacetes cuja construção remonta aos séculos XVIII e XIX. Muitas destas belas obras arquitectónicas encontram-se em avançado estado de degradação, fruto do abandono dado pelos herdeiros das famílias nobres, que pelos mais diversos motivos, deixam este valiosíssimo património à mercê do tempo e também do vandalismo...


Do nosso lado esquerdo começamos a avistar alguns viadutos em pedra. São os viadutos e as pontes ferroviárias da Linha do Douro, de onde se destaca o belo Viaduto da Pala, com os seus 197 metros de comprimento. É o momento em que esta linha ferroviária começa a aproximar-se da margem do Rio, e nos irá acompanhar, sempre sobranceira, até ao nosso destino. Mas sobre a Linha do Douro, falaremos mais adiante.

À nossa frente surge-nos a ponte rodoviária de Mosteirô, que liga os concelhos de Cinfães e do Marco de Canaveses. O viajante, ao aproximar-se desta ponte, fica com a estranha sensação de que o topo do barco vai bater na ponte. Também não é de admirar, pois a distância que vai do leito do rio à parte mais baixa da ponte é de apenas 7 metros de altura. No entanto as embarcações estão preparadas e embora passando tangencialmente, transpõem esta ponte sem qualquer problema.
Cada vez mais frequentes nesta região são os parques eólicos para aproveitamento de energia eléctrica através da força do vento, e que podemos observá-los com bastante frequência nos pontos mais altos das montanhas sobranceiras ao Douro, desde Gondomar (Parque da Serra da Boneca) até à região de Lamego (na Serra das Meadas).

Subitamente somos surpreendidos por um buzinar constante e um roncar de um possante motor. É o característico comboio da linha do Douro, que praticamente nos acompanha quase a rasar o rio, pois a linha em certas zonas encontra-se a uma curta distância da margem, dando mesmo a ideia de que o comboio vai mergulhar dentro das águas Durienses. Esta composição costuma ser formada por uma locomotiva dos anos 60, fabricada pela English Electric, da série 1400, e que habitualmente reboca 5 a 6 carruagens, todas elas também com algumas dezenas de anos e que são apelidadas de “Sorefames”, devido ao antigo e famoso construtor português de material ferroviário. É frequente verem-se os passageiros do comboio, à janela, a saudar quem vai no barco, sendo essa saudação acompanhada de simpáticas buzinadelas da velhinha locomotiva, e também retribuídas pelos turistas e tripulação do “Douro Azul”.
 

Contrastando com a Ponte de Mosteirô, eis que encontramos a Ponte de Ermida, com os seus 72 metros de altura acima do nível da água e um tabuleiro com 430 metros de extensão. Inaugurada em 1998, esta ponte foi a concretização de um sonho dos habitantes desta região, quebrando o isolamento dos concelhos de Baião, Resende, Mesão Frio e Cinfães.
A partir desta zona, começam-se a visualizar as primeiras explorações vinícolas do afamado Vinho do Porto, e onde também encontramos alguns imóveis que identificam esta região, nomeadamente um dos edifícios da Casa do Douro, tal como diversas Adegas Cooperativas.Também de destacar nesta região são as estâncias termais de Aregos (na margem sul do rio) e das Caldas de Moledo (na margem norte), ambas inseridas em locais muito aprazíveis junto ao rio, onde imperam a tranquilidade, o sossego e o ar puro. Apenas de destacar pela curiosidade a pequena imagem da Nossa Senhora da Boa Viagem, colocada numa rocha junto ao rio, talvez com a intenção de abençoar quem do Douro faz a sua via de comunicação.

E, quase sem que tenhamos dado por isso, volvidas cerca de 7 horas desde que partimos do cais de Vila Nova de Gaia, chegamos à bonita cidade do Peso da Régua. Um simpático barco rabelo alusivo à Quinta do Castelinho, parece dar-nos as boas vindas a esta região. Atracamos no porto fluvial da Régua, onde alguns autocarros nos esperam para fazermos uma curta visita a uma Quinta desta mesma região, onde teremos o prazer de visitar a adega onde são produzidos não só os vinhos de mesa, como também o célebre Vinho do Porto. Para os enólogos ou mais curiosos, sugerimos a visita a este site, onde são apresentadas as diversas produções e as diversas castas da Quinta do Castelinho, local escolhido para a nossa visita. A visita às adegas termina com uma prova de vinho do Porto, com regresso novamente assegurado por autocarros, desta vez com paragem na estação ferroviária do Peso da Régua.


Por volta das 18h chega o comboio fretado exclusivamente para os turistas dos cruzeiros do Douro, que nos irá transportar de regresso até à cidade do Porto. Se a viagem de barco é inesquecível, podemos garantir que a viagem de comboio é também um momento muito agradável desta excursão. Pelas suas características, as carruagens deste comboio permitem ao turista viajar de cabelos ao vento e apreciar ao vivo a viagem, sempre acompanhada do “ronronar” da “1400” e do seu característico cheiro a diesel.

Entre a Régua e a estação de Mosteirô, o comboio segue praticamente o seu trajecto junto à margem do rio, tal como já tinhamos observado durante a travessia de barco. Por vezes somos confrontados com pequenos túneis, construídos para vencer os caprichos da natureza, numa linha que demorou cerca de 6 anos a ser construída entre Ermesinde e a Régua, tais foram as dificuldades com que se depararam na altura para a sua construção, por forma a que em 1879 chegasse o primeiro comboio à Regua. Deixamos a estação de Mosteirô para trás, e eis que o comboio começa a afastar-se do rio, atravessando diversas pontes e viadutos construídos para o atravessamento dos numerosos rios e ribeiros que irrigam esta região.
Uma das mais emblemáticas obras desta linha férrea é, sem duvida, o Tunel do Juncal, com os seus 1621 metros de comprimento e que foi construído para conseguir vencer um dos contrafortes da Serra do Marão, fazendo assim chegar a via férrea às margens durienses. Concluída a sua construção em 1878, este túnel é fascinante não só pela sua extensão, como também pelo seu aspecto, pois é todo ele em rampa (no sentido Régua-Porto), o que obriga a um esforço suplementar da locomotiva.

Uma vez transposto este túnel, a paisagem muda radicalmente. O Douro ficou lá para trás e agora a paisagem é tipicamente rural, com campos de cultivo junto à via férrea, alternando com algumas extensões de florestas de pinheiros e eucaliptos. Depois de passada a estação do Marco de Canaveses, atravessamos a ponte do Tâmega de 260 metros de comprimento e 56 metros de altura. A avançada idade desta ponte obriga a que a composição siga a velocidade muito reduzida. A paisagem no cimo da ponte é deslumbrante, com o enorme edificio das Caldas de Canaveses ao fundo, actualmente desactivado e abandonado. Uma vez transposta esta ponte, a composição retoma a sua velocidade de cruzeiro até chegarmos à estação da Livração. Nesta estação parte o ramal de via estreita que faz a ligação a Amarante.

Continuando a nossa viagem, atravessamos a ponte de Vila Meã com 165 metros de comprimento, e encontramos o 2º maior túnel deste troço ferroviário, que é o Túnel de Caíde com 1086 metros de comprimento. Depois de atravessado este túnel, chegamos à estação de Caíde, que tem a particularidade de ser a estação mais alta da linha do Douro, a 245 metros de altitude. A partir desta estação, a via é electrificada e dupla, e a paisagem começa a tornar-se lentamente urbanizada, alternando ainda por vezes com largas extensões de campos verdejantes. A partir daqui, tornam-se frequentes os cruzamentos com as modernas composições de tracção eléctrica da unidade CP-Porto, operadora ferroviária dos comboios urbanos do grande Porto, caracterizadas pela sua cor amarela e pelo seu design moderno e atraente, tecnicamente denominadas de “UME 3400”. A viagem continua o seu rumo, mas cada vez mais o trajecto se assemelha a uma linha de uma região mais desenvolvida, e que contrasta com os lanços bucólicos que há alguns quilómetros atrás havíamos apreciado.

Por outro lado o cansaço também é visível na face dos viajantes deste cruzeiro, e rapidamente a composição chega ao seu destino, que é a cidade do Porto. A primeira paragem efectua-se na estação de Campanhã, recentemente modernizada e um exemplo de intermodalidade, não só com outras linhas de caminho de ferro, como também com o serviço do Metro do Porto e também com o serviço rodoviário de autocarros prestado pela STCP e pela Gondomarense.

Volvida a estação de Campanhã, eis que voltamos a avistar o Douro, mas por pouco tempo, pois entramos numa sequência de diversos túneis com destino à estação final, S. Bento.

 
Por Ricardo Taveira                                                                                                                     Actualizado em Janeiro de 2006

 





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