Nesta
3ª edição do
Viajando, propomos uma visita a uma das regiões mais setentrionais do
território nacional, com passagem ainda pelo Peso da Régua, "Capital do
Vinho do Porto".
O Viajando pretende ser um guia para o turista,
sempre com recurso aos diversos meios de transporte públicos que tem ao
seu dispor, e esta edição não é excepção.
Desta vez, apresentaremos um roteiro para um
fim-de-semana (dois dias), dado o itinerário ser bastante longo...
tornando-se demasiado fatigante para ser executado em apenas um dia.
A nossa viagem inicia-se no Porto, na estação ferroviária de
S. Bento onde nos espera o comboio Inter-regional (IR 863) com destino
ao Peso da Régua e partida às 9:15.

O actual edifício remonta a 1916, sendo actualmente
a estação terminal de todos os serviços urbanos da CP Porto, bem como
de alguns serviços Regionais e Inter-regionais das linhas do Douro e
Minho. O átrio de entrada, também designado por vestíbulo, está
ornamentado com uma bela colecção de azulejos, da autoria do pintor
Jorge Colaço, representando desde a evolução dos transportes até cenas
típicas do quotidiano do Norte do país, passando por uma área no topo
inferior onde se vislumbram 4 painéis azuis descrevendo episódios da
História de Portugal.
O roteiro ferroviário que aqui propomos é
essencialmente turístico. Aconselhamos vivamente a ler o excelente
artigo da autoria de João Cunha sobre a Linha do Douro, na secção
ferroviária do Transportes XXI, para uma consulta mais detalhada e
técnica sobre esta linha.

E é chegada a altura de iniciar a nossa viagem.
Sugerimos que tome o lugar à direita da carruagem, de preferência à
janela para poder tirar todo o partido da viagem. À hora marcada, a
composição parte da estação entrando num túnel que nos transporta pelo
subsolo da Invicta até próximo de Campanhã, principal estação
ferroviária da cidade do Porto. À saída do túnel, do lado direito,
vemos por alguns momentos o Rio Douro, mas o encontro é breve, pois a
linha desvia-se para norte, e o reencontro da linha com o rio só irá
acontecer algumas dezenas de kms à frente. Também podemos vislumbrar a
centenária ponte ferroviária D. Maria Pia, actualmente desactivada e
substituída pela moderna Ponte S. João.
A viagem prossegue num cenário suburbano, bifurcando a
linha-férrea em Ermesinde para o Minho e para o Douro. Recentemente
renovada e electrificada até Caíde, a Linha do Douro segue a partir
desta estação por um trajecto mais bucólico onde a presença de longos
túneis é uma constante, sendo de destacar o túnel do Juncal com quase 2
kms de comprimento. À saída deste túnel e passado o belo viaduto da
Pala, eis que deparamos novamente com o Rio Douro, que se apresenta com
um aspecto mais rural e calmo.

A partir da estação de Mosteirô, a linha segue
quase permanentemente a margem do rio, chegando por vezes a dar a
sensação que os carris tocam a água. Começam a surgir numa cadeia de
socalcos nas encostas do rio, as primeiras explorações vitivinícolas do
famoso néctar que granjeia esta região mundialmente, o Vinho do Porto.
A composição segue lentamente o seu trajecto,
como que a convidar o viajante a colocar-se à janela, de cabelos ao
vento, e apreciar a pureza e beleza que só o Douro pode oferecer.
Se o comboio não se atrasar, a chegada à cidade do
Peso da Régua prevê-se para as 11:12. Aqui descemos do comboio para
conhecer um pouco esta cidade e claro está, também almoçar.
Elevada à categoria de cidade em 1985, o Peso da
Régua bem cedo começou a se desenvolver, devido ao facto de, no Século
XVII, a companhia da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro, instituída
pelo Marquês de Pombal, ter feito deste local o entreposto que
organizava e disciplinava a navegação fluvial, assegurada pelos típicos
barcos rabelos que até meados do Século XIX faziam o transporte para o
Porto dos vinhos generosos do Douro.

A sede da Casa do Douro, surgida em 1936 no
Peso da Régua, torna-a verdadeira capital da região produtora do Vinho
do Porto, pelo que sugerimos uma visita a este edifício, em especial ao
Museu do Douro no 4º piso deste local.
Também merece uma visita a igreja
matriz, airosa e simples, caracterizada por um templo de uma só nave,
construída no 2º quartel do Século XVIII. A sua capela-mor apresenta
uma grande tela com a Última Ceia de Cristo, da autoria de Pedro
Alexandrino.
Chegada à hora do almoço, há que
escolher um de entre os muitos restaurantes existentes nesta cidade. A
gastronomia desta região é muito diversificada, dela fazendo parte por
exemplo, o arroz de forno com cabrito assado acompanhado de um vinho
tinto da região, quente e aveludado, o que o torna ideal para
acompanhar um prato de carne. À sobremesa, recomendamos o leite-creme,
ou uma Ferreirinha, doce típico desta região, acompanhado de um cálice
de Vinho do Porto.

Antes de tomar o comboio, não se esqueça de
levar algumas recordações do Peso da Régua. No artesanato, temos as
miniaturas dos cestos de vindima e de barcos rabelos. Quanto à doçaria,
para além das já faladas acima Ferreirinhas feitas de uvas passas,
pinhões, amêndoas, chila e Vinho do Porto, não pode deixar de levar um
“saquinho de rebuçadinhos da Régua”, normalmente vendidos junto à
estação do caminho-de-ferro por senhoras vestidas de bata e lenço
branco. Os Rabelos são outro doce regional que têm o formato das
embarcações típicas do Douro. Depois de confeccionados, são colocados
em cada um deles um mastro e uma vela. O modo de preparação destas
iguarias é um segredo que só as mãos dos seus criadores conhecem.
Pelas 15:00, é hora de regressar à estação
ferroviária, para tomar o comboio com destino ao Pocinho. A sua partida
está marcada para as 15:18.
Continuamos assim a nossa viagem sempre com o Douro
por companhia. Durante alguns kms, e até passarmos a ponte sobre o Rio
Corgo, a via é partilhada pelos comboios da linha do Douro, como também
pelos comboios de via estreita da Linha do Corgo, que liga a Régua a
Vila Real.

Após a separação destas duas linhas, entramos no túnel de
Bagaúste, construído na altura da barragem com o mesmo nome, nos anos
70 para permitir a circulação ferroviária neste local. Atravessado o
túnel, prosseguimos pelo vale do Douro passando por pequenas estações e
apeadeiros, algumas delas em estado muito bem conservado, mas outras
num estado de maior degradação.
A vinha, essa é que é uma presença constante
nas encostas do rio. Os vinhedos que dão origem a tão afamado néctar
situam-se nas encostas abruptas e grandiosas do Douro e seus afluentes.
A disposição do solo em socalcos, indispensável à instalação da cultura
da vinha, origina uma paisagem deslumbrante, de características
ímpares, cultivadas graças à preserverança dos Homens que durante
gerações cavaram a rocha mãe. É curioso que numa zona tão hostil nasça
um dos vinhos mais apreciados do mundo inteiro.
Entretanto a nossa viagem continua. A estação do
Tua, uma das mais importantes deste troço entre a Régua e o Pocinho,
serve de interface à linha do Tua, de via estreita, que liga esta
estação à cidade de Mirandela. Por esse motivo, regra geral, saem aqui
muitos passageiros do comboio, indo a composição quase vazia até ao
Pocinho.

Após a passagem junto à Barragem da Valeira, o
comboio atravessa o rio Douro pela Ponte da Ferradosa, passando o
comboio a circular na margem esquerda do rio até ao seu destino.
Montes a perder de vista, alternando com
algumas explorações vitivinícolas fazem parte da paisagem, entre pontes
e túneis.
E eis que chegamos ao Pocinho, pelas 16:48 (horário
do comboio). É altura de aguardar pelo autocarro da empresa SANTOS, que
nos levará até Miranda do Douro. A sua partida é prevista às 18:28,
mesmo ao lado da estação. Espera-nos uma viagem de cerca de 2 horas até
à Terra dos Pauliteiros.
Há cerca de 20 anos atrás, esta viagem era
feita também de comboio pela Linha do Sabor até às imediações de
Miranda, na povoação de Duas Igrejas. Entretanto, a linha foi
desactivada e hoje pouco resta dos carris desta via, nas zonas em que
não sofreu a mutação para eco-pista.
Chegamos a Miranda do Douro. Cidadezinha
fronteiriça, adormecida no extremo NE do território português, numa
área despovoada e agreste, Miranda do Douro localiza-se no cimo de uma
encosta um tanto abrupta, a 687 metros de altitude, na íngreme margem
do Rio Douro, que se estende na direcção de Zamora e Salamanca, em
Espanha. A ligação rodoviária com o país vizinho foi facilitada com a
construção da barragem hidroeléctrica de Miranda, em 1960.
Ignora-se como começou o povoamento de
Miranda. Sabe-se que foi ocupada pelos Romanos, e posteriormente, no
Século VIII pelos Mouros, que lhe deram o nome de “Mir Andul” que
posteriormente derivou para a actual Miranda.

A sua localização
fronteiriça conferiu-lhe o estatuto de importante ponto estratégico de
defesa, tendo D. Afonso Henriques mandado construir no Século XII o
castelo e a cerca de muralhas, transformando-a numa verdadeira Praça de
Armas. Em 1760, o castelo foi quase todo destruído por uma violenta
explosão de um paiol de pólvora, resistindo apenas as muralhas e a
torre de menagem.
No Século XVI, Miranda foi elevada à
categoria de cidade, e sede do bispado de Trás-os-Montes, entrando numa
fase de prosperidade em que se construíram grandiosos edifícios, sendo
de destacar a Igreja de Santa Maria Maior, que durante cerca de dois
séculos teve a categoria de Sé Catedral.
Edificada na segunda metade do
Século XVI, a Sé apresenta-se como um edifício de linhas sóbrias e
verticais.

O altar-mor apresenta um retábulo renascentista composto por
56 imagens bíblicas em alto-relevo; singular é a ingénua imagem do
Menino Jesus da Cartolinha, datada de meados do Século XIX e que
corporaliza uma lenda que remonta à Guerra da Restauração, durante a
qual um rapazinho de espada em punho (depois identificado com o Menino
Jesus) andou a percorrer as ruas da cidade atiçando a coragem dos seus
moradores para fazerem frente aos Espanhóis. O Paço Episcopal, pouco
depois de construído, foi vítima de incêndio em 1706, restando apenas o
andar térreo com uma arcada de amplas proporções, actualmente
transformado em local ajardinado.
Chegados a Miranda, é altura de procurar um
local para jantar e pernoitar. A variedade quer de

restaurantes, quer
de hotéis, é suficiente para que encontre um que corresponda aos seus
gostos. Sugerimos a visita ao site da Região de Turismo do Nordeste
Transmontano (http://www.rt-nordeste.pt) onde poderá fazer uma consulta
das diversas ofertas hoteleiras desta cidade. Na gastronomia, o prato
mais famoso desta região é, sem dúvida, a Posta à Mirandesa, um enorme
e tenro naco de carne bovina de criação regional, servido com batata a
murro numa simbiose perfeita. O fumeiro é também afamado, destacando-se
os presuntos, as alheiras e os salpicões. Alguns restaurantes também
servem carne de caça desta região. Na doçaria, destaque para a Bola
Doce Mirandesa, as Rosquilhas, o Arroz Doce e o Pão-de-ló.
Após o jantar, é altura de recolher ao hotel. Em
Miranda do Douro, não há espaços de diversão nocturna, no entanto
poderá encontrar um ou outro bar aberto até mais tarde.
2º Dia
Depois de uma noite bem passada e de um
bom pequeno-almoço reconfortante, é altura de partir à descoberta desta
pequena cidade.

Comecemos por um passeio matinal até à barragem de
Miranda, denominado Miranda “O Douro a seus pés”. O percurso pedestre é
facilitado pela recente construção de amplos passeios que permitem ao
viajante circular em perfeita segurança e aproveitar ao máximo a
paisagem deslumbrante que o Douro nos oferece nesta região, paisagem
esta inserida no Parque Natural do Douro Internacional.
Criado em 1998, este Parque tem como
objectivo a preservação da fauna e da flora desta região, e abrange os
concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta e
Figueira de Castelo Rodrigo. Para uma consulta mais detalhada,
sugerimos a visita ao site:
http://portal.icn.pt/ICNPortal/vPT/Areas+Protegidas/ParquesNaturais/DouroInternacional
.
De regresso ao centro da cidade, siga
para a zona antiga da cidade e faça uma visita à Sé Catedral, já
descrita acima e que merece uma visita mais atenta. Outro local que não
deve dispensar a visita é o Museu das Terras de Miranda, onde poderá
conhecer, num edifício do Século XVII, a antiga e a actual rusticidade
dos povos e gentes simples desta região e um pouco de todo o nordeste
transmontano.
O Centro Histórico de Miranda é constituído
por uma vasta área habitacional cercada de muralhas e pela cintura de
protecção ao espaço urbano que, por ser parte integrante do património,
também é considerado monumento nacional.
Embora em ruínas, também recomendamos a visita
ao castelo de Miranda, pelo seu simbolismo histórico e pela sua
imponência.

Bem próximo do castelo, encontramos a Casa da Musica
Mirandesa. A função desta estrutura é essencialmente ajudar e divulgar
as seculares língua e cultura Mirandesas.
Nesta região está implementado um dialecto com
um corpo gramatical perfeito que, sem ser portuguesa, veio do tempo da
formação de Portugal: estamos a falar da Língua Mirandesa que já
conseguiu o estatuto de segunda língua oficial de Portugal e
inclusivamente já possui uma convenção ortográfica. Actualmente esta
língua é usada por cerca de 15.000 pessoas das aldeias do concelho de
Miranda e algumas aldeias do concelho de Vimioso.
Um dos ícones desta região é sem duvida o seu
folclore, com as danças dos Pauliteiros de Miranda. Imprevista, variada
e colorida, a coreografia exige grande destreza dos dançarinos. Em cada
mão um pau grosso como um cabo de martelo avançam como se caminhassem
em campo vasto à frente de um exército.

Enquanto visita a cidade, aproveite e
escolha um dos diversos restaurantes típicos que poderá encontrar em
muitas das ruas do Centro Histórico. Após o almoço, leve algumas
recordações em artesanato desta linda região: destaque para as miniaturas de arados, rocas, carros de bois e outros objectos
tradicionais da zona feitos em madeira, verga e ferro forjado; as
colchas bordadas pelas experientes mãos das artesãs de Miranda e os
tapetes em lã e linho, são também artigos que o turista deve adquirir
como um precioso objecto artesanal desta região.
E eis que se aproxima a hora da
despedida. O autocarro da empresa SANTOS espera-nos no terminal
rodoviário, sendo a sua partida prevista para as 16 horas. Uma longa
viagem de cerca de 4 horas e meia levar-nos-á até ao litoral, mais
precisamente à cidade do Porto. Aproveite para descansar durante a
viagem e recordar os bons momentos que concerteza esta região lhe
permitiu desfrutar!
Nota importante: todos os horários
indicados correspondem a um itinerário previsto para um fim-de-semana.
Se optar por visitar esta região noutros dias, aconselhamos que faça
uma consulta prévia aos horários dos comboios da linha do Douro em
http://www.cp.pt e aos horários dos autocarros em
http://www.santosviagensturismo.pt .