Sexta Feira, 08 de Agosto de 2008
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» Viajando... por Miranda do Douro



Nesta 3ª edição do Viajando, propomos uma visita a uma das regiões mais setentrionais do território nacional, com passagem ainda pelo Peso da Régua, "Capital do Vinho do Porto".

O Viajando pretende ser um guia para o turista, sempre com recurso aos diversos meios de transporte públicos que tem ao seu dispor, e esta edição não é excepção.
Desta vez, apresentaremos um roteiro para um fim-de-semana (dois dias), dado o itinerário ser bastante longo... tornando-se demasiado fatigante para ser executado em apenas um dia.




A nossa viagem inicia-se no Porto, na estação ferroviária de S. Bento onde nos espera o comboio Inter-regional (IR 863) com destino ao Peso da Régua e partida às 9:15.
O actual edifício remonta a 1916, sendo actualmente a estação terminal de todos os serviços urbanos da CP Porto, bem como de alguns serviços Regionais e Inter-regionais das linhas do Douro e Minho. O átrio de entrada, também designado por vestíbulo, está ornamentado com uma bela colecção de azulejos, da autoria do pintor Jorge Colaço, representando desde a evolução dos transportes até cenas típicas do quotidiano do Norte do país, passando por uma área no topo inferior onde se vislumbram 4 painéis azuis descrevendo episódios da História de Portugal.
O roteiro ferroviário que aqui propomos é essencialmente turístico. Aconselhamos vivamente a ler o excelente artigo da autoria de João Cunha sobre a Linha do Douro, na secção ferroviária do Transportes XXI, para uma consulta mais detalhada e técnica sobre esta linha.


E é chegada a altura de iniciar a nossa viagem. Sugerimos que tome o lugar à direita da carruagem, de preferência à janela para poder tirar todo o partido da viagem. À hora marcada, a composição parte da estação entrando num túnel que nos transporta pelo subsolo da Invicta até próximo de Campanhã, principal estação ferroviária da cidade do Porto. À saída do túnel, do lado direito, vemos por alguns momentos o Rio Douro, mas o encontro é breve, pois a linha desvia-se para norte, e o reencontro da linha com o rio só irá acontecer algumas dezenas de kms à frente. Também podemos vislumbrar a centenária ponte ferroviária D. Maria Pia, actualmente desactivada e substituída pela moderna Ponte S. João.       
A viagem prossegue num cenário suburbano, bifurcando a linha-férrea em Ermesinde para o Minho e para o Douro. Recentemente renovada e electrificada até Caíde, a Linha do Douro segue a partir desta estação por um trajecto mais bucólico onde a presença de longos túneis é uma constante, sendo de destacar o túnel do Juncal com quase 2 kms de comprimento. À saída deste túnel e passado o belo viaduto da Pala, eis que deparamos novamente com o Rio Douro, que se apresenta com um aspecto mais rural e calmo.

A partir da estação de Mosteirô, a linha segue quase permanentemente a margem do rio, chegando por vezes a dar a sensação que os carris tocam a água. Começam a surgir numa cadeia de socalcos nas encostas do rio, as primeiras explorações vitivinícolas do famoso néctar que granjeia esta região mundialmente, o Vinho do Porto.
A composição segue lentamente o seu trajecto, como que a convidar o viajante a colocar-se à janela, de cabelos ao vento, e apreciar a pureza e beleza que só o Douro pode oferecer.
Se o comboio não se atrasar, a chegada à cidade do Peso da Régua prevê-se para as 11:12. Aqui descemos do comboio para conhecer um pouco esta cidade e claro está, também almoçar.
      
Elevada à categoria de cidade em 1985, o Peso da Régua bem cedo começou a se desenvolver, devido ao facto de, no Século XVII, a companhia da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro, instituída pelo Marquês de Pombal, ter feito deste local o entreposto que organizava e disciplinava a navegação fluvial, assegurada pelos típicos barcos rabelos que até meados do Século XIX faziam o transporte para o Porto dos vinhos generosos do Douro.
A sede da Casa do Douro, surgida em 1936 no Peso da Régua, torna-a verdadeira capital da região produtora do Vinho do Porto, pelo que sugerimos uma visita a este edifício, em especial ao Museu do Douro no 4º piso deste local.
Também merece uma visita a igreja matriz, airosa e simples, caracterizada por um templo de uma só nave, construída no 2º quartel do Século XVIII. A sua capela-mor apresenta uma grande tela com a Última Ceia de Cristo, da autoria de Pedro Alexandrino.

Chegada à hora do almoço, há que escolher um de entre os muitos restaurantes existentes nesta cidade. A gastronomia desta região é muito diversificada, dela fazendo parte por exemplo, o arroz de forno com cabrito assado acompanhado de um vinho tinto da região, quente e aveludado, o que o torna ideal para acompanhar um prato de carne. À sobremesa, recomendamos o leite-creme, ou uma Ferreirinha, doce típico desta região, acompanhado de um cálice de Vinho do Porto.

Antes de tomar o comboio, não se esqueça de levar algumas recordações do Peso da Régua. No artesanato, temos as miniaturas dos cestos de vindima e de barcos rabelos. Quanto à doçaria, para além das já faladas acima Ferreirinhas feitas de uvas passas, pinhões, amêndoas, chila e Vinho do Porto, não pode deixar de levar um “saquinho de rebuçadinhos da Régua”, normalmente vendidos junto à estação do caminho-de-ferro por senhoras vestidas de bata e lenço branco. Os Rabelos são outro doce regional que têm o formato das embarcações típicas do Douro. Depois de confeccionados, são colocados em cada um deles um mastro e uma vela. O modo de preparação destas iguarias é um segredo que só as mãos dos seus criadores conhecem.
Pelas 15:00, é hora de regressar à estação ferroviária, para tomar o comboio com destino ao Pocinho. A sua partida está marcada para as 15:18.

Continuamos assim a nossa viagem sempre com o Douro por companhia. Durante alguns kms, e até passarmos a ponte sobre o Rio Corgo, a via é partilhada pelos comboios da linha do Douro, como também pelos comboios de via estreita da Linha do Corgo, que liga a Régua a Vila Real. Após a separação destas duas linhas, entramos no túnel de Bagaúste, construído na altura da barragem com o mesmo nome, nos anos 70 para permitir a circulação ferroviária neste local. Atravessado o túnel, prosseguimos pelo vale do Douro passando por pequenas estações e apeadeiros, algumas delas em estado muito bem conservado, mas outras num estado de maior degradação.
A vinha, essa é que é uma presença constante nas encostas do rio. Os vinhedos que dão origem a tão afamado néctar situam-se nas encostas abruptas e grandiosas do Douro e seus afluentes. A disposição do solo em socalcos, indispensável à instalação da cultura da vinha, origina uma paisagem deslumbrante, de características ímpares, cultivadas graças à preserverança dos Homens que durante gerações cavaram a rocha mãe. É curioso que numa zona tão hostil nasça um dos vinhos mais apreciados do mundo inteiro.
Entretanto a nossa viagem continua. A estação do Tua, uma das mais importantes deste troço entre a Régua e o Pocinho, serve de interface à linha do Tua, de via estreita, que liga esta estação à cidade de Mirandela. Por esse motivo, regra geral, saem aqui muitos passageiros do comboio, indo a composição quase vazia até ao Pocinho.


Após a passagem junto à Barragem da Valeira, o comboio atravessa o rio Douro pela Ponte da Ferradosa, passando o comboio a circular na margem esquerda do rio até ao seu destino.
Montes a perder de vista, alternando com algumas explorações vitivinícolas fazem parte da paisagem, entre pontes e túneis.
E eis que chegamos ao Pocinho, pelas 16:48 (horário do comboio). É altura de aguardar pelo autocarro da empresa SANTOS, que nos levará até Miranda do Douro. A sua partida é prevista às 18:28, mesmo ao lado da estação. Espera-nos uma viagem de cerca de 2 horas até à Terra dos Pauliteiros.
Há cerca de 20 anos atrás, esta viagem era feita também de comboio pela Linha do Sabor até às imediações de Miranda, na povoação de Duas Igrejas. Entretanto, a linha foi desactivada e hoje pouco resta dos carris desta via, nas zonas em que não sofreu a mutação para eco-pista.
      
Chegamos a Miranda do Douro. Cidadezinha fronteiriça, adormecida no extremo NE do território português, numa área despovoada e agreste, Miranda do Douro localiza-se no cimo de uma encosta um tanto abrupta, a 687 metros de altitude, na íngreme margem do Rio Douro, que se estende na direcção de Zamora e Salamanca, em Espanha. A ligação rodoviária com o país vizinho foi facilitada com a construção da barragem hidroeléctrica de Miranda, em 1960.
Ignora-se como começou o povoamento de Miranda. Sabe-se que foi ocupada pelos Romanos, e posteriormente, no Século VIII pelos Mouros, que lhe deram o nome de “Mir Andul” que posteriormente derivou para a actual Miranda.

A sua localização fronteiriça conferiu-lhe o estatuto de importante ponto estratégico de defesa, tendo D. Afonso Henriques mandado construir no Século XII o castelo e a cerca de muralhas, transformando-a numa verdadeira Praça de Armas. Em 1760, o castelo foi quase todo destruído por uma violenta explosão de um paiol de pólvora, resistindo apenas as muralhas e a torre de menagem.
No Século XVI, Miranda foi elevada à categoria de cidade, e sede do bispado de Trás-os-Montes, entrando numa fase de prosperidade em que se construíram grandiosos edifícios, sendo de destacar a Igreja de Santa Maria Maior, que durante cerca de dois séculos teve a categoria de Sé Catedral.
Edificada na segunda metade do Século XVI, a Sé apresenta-se como um edifício de linhas sóbrias e verticais. O altar-mor apresenta um retábulo renascentista composto por 56 imagens bíblicas em alto-relevo; singular é a ingénua imagem do Menino Jesus da Cartolinha, datada de meados do Século XIX e que corporaliza uma lenda que remonta à Guerra da Restauração, durante a qual um rapazinho de espada em punho (depois identificado com o Menino Jesus) andou a percorrer as ruas da cidade atiçando a coragem dos seus moradores para fazerem frente aos Espanhóis. O Paço Episcopal, pouco depois de construído, foi vítima de incêndio em 1706, restando apenas o andar térreo com uma arcada de amplas proporções, actualmente transformado em local ajardinado.
      
Chegados a Miranda, é altura de procurar um local para jantar e pernoitar. A variedade quer de restaurantes, quer de hotéis, é suficiente para que encontre um que corresponda aos seus gostos. Sugerimos a visita ao site da Região de Turismo do Nordeste Transmontano (http://www.rt-nordeste.pt) onde poderá fazer uma consulta das diversas ofertas hoteleiras desta cidade. Na gastronomia, o prato mais famoso desta região é, sem dúvida, a Posta à Mirandesa, um enorme e tenro naco de carne bovina de criação regional, servido com batata a murro numa simbiose perfeita. O fumeiro é também afamado, destacando-se os presuntos, as alheiras e os salpicões. Alguns restaurantes também servem carne de caça desta região. Na doçaria, destaque para a Bola Doce Mirandesa, as Rosquilhas, o Arroz Doce e o Pão-de-ló.
Após o jantar, é altura de recolher ao hotel. Em Miranda do Douro, não há espaços de diversão nocturna, no entanto poderá encontrar um ou outro bar aberto até mais tarde.



  
2º Dia
      
Depois de uma noite bem passada e de um bom pequeno-almoço reconfortante, é altura de partir à descoberta desta pequena cidade.
Comecemos por um passeio matinal até à barragem de Miranda, denominado Miranda “O Douro a seus pés”. O percurso pedestre é facilitado pela recente construção de amplos passeios que permitem ao viajante circular em perfeita segurança e aproveitar ao máximo a paisagem deslumbrante que o Douro nos oferece nesta região, paisagem esta inserida no Parque Natural do Douro Internacional.
Criado em 1998, este Parque tem como objectivo a preservação da fauna e da flora desta região, e abrange os concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta e Figueira de Castelo Rodrigo. Para uma consulta mais detalhada, sugerimos a visita ao site: http://portal.icn.pt/ICNPortal/vPT/Areas+Protegidas/ParquesNaturais/DouroInternacional .
De regresso ao centro da cidade, siga para a zona antiga da cidade e faça uma visita à Sé Catedral, já descrita acima e que merece uma visita mais atenta. Outro local que não deve dispensar a visita é o Museu das Terras de Miranda, onde poderá conhecer, num edifício do Século XVII, a antiga e a actual rusticidade dos povos e gentes simples desta região e um pouco de todo o nordeste transmontano.

O Centro Histórico de Miranda é constituído por uma vasta área habitacional cercada de muralhas e pela cintura de protecção ao espaço urbano que, por ser parte integrante do património, também é considerado monumento nacional.
Embora em ruínas, também recomendamos a visita ao castelo de Miranda, pelo seu simbolismo histórico e pela sua imponência.
Bem próximo do castelo, encontramos a Casa da Musica Mirandesa. A função desta estrutura é essencialmente ajudar e divulgar as seculares língua e cultura Mirandesas.
Nesta região está implementado um dialecto com um corpo gramatical perfeito que, sem ser portuguesa, veio do tempo da formação de Portugal: estamos a falar da Língua Mirandesa que já conseguiu o estatuto de segunda língua oficial de Portugal e inclusivamente já possui uma convenção ortográfica. Actualmente esta língua é usada por cerca de 15.000 pessoas das aldeias do concelho de Miranda e algumas aldeias do concelho de Vimioso.

Um dos ícones desta região é sem duvida o seu folclore, com as danças dos Pauliteiros de Miranda. Imprevista, variada e colorida, a coreografia exige grande destreza dos dançarinos. Em cada mão um pau grosso como um cabo de martelo avançam como se caminhassem em campo vasto à frente de um exército.
Enquanto visita a cidade, aproveite e escolha um dos diversos restaurantes típicos que poderá encontrar em muitas das ruas do Centro Histórico. Após o almoço, leve algumas recordações em artesanato desta linda região: destaque para as miniaturas de arados, rocas, carros de bois e outros objectos tradicionais da zona feitos em madeira, verga e ferro forjado; as colchas bordadas pelas experientes mãos das artesãs de Miranda e os tapetes em lã e linho, são também artigos que o turista deve adquirir como um precioso objecto artesanal desta região.
E eis que se aproxima a hora da despedida. O autocarro da empresa SANTOS espera-nos no terminal rodoviário, sendo a sua partida prevista para as 16 horas. Uma longa viagem de cerca de 4 horas e meia levar-nos-á até ao litoral, mais precisamente à cidade do Porto. Aproveite para descansar durante a viagem e recordar os bons momentos que concerteza esta região lhe permitiu desfrutar!
      

Nota importante: todos os horários indicados correspondem a um itinerário previsto para um fim-de-semana. Se optar por visitar esta região noutros dias, aconselhamos que faça uma consulta prévia aos horários dos comboios da linha do Douro em http://www.cp.pt e aos horários dos autocarros em http://www.santosviagensturismo.pt .


por Ricardo Taveira
Actualizado a 15 de Outubro de 2006



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