» Comboio Presidencial visita Vila Nova de Famalicão


No passado dia 27 de Março, o comboio Presidencial realizou a segunda viagem oficial após o profundo processo de restauro que sofreu entre 2010 e 2013, até Vila Nova de Famalicão.

A iniciativa, organizada em conjunto pela Fundação Museu Nacional Ferroviário (FMNF) e pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, contou com a presença de cerca de 150 convidados que tiveram oportunidade de desfrutar de um passeio histórico que permitiu conhecer o glamour do meio de transporte dos Chefes de Estado e suas comitivas, entre 1910 e 1970.

Desde a sua desactivação nos anos 70, a composição entrou em processo de degradação e abandono até Novembro de 2010, quando, numa arrojada e inédita iniciativa a Fundação Museu Nacional Ferroviário inicia o processo de restauro encaminhando para as instalações da Empresa de Manutenção do Equipamento Ferroviário, em Contumil, três carruagens (Chefe de Estado, Comitiva de Segurança e Jornalistas) e o furgão. No ano seguinte juntaram-se a estas as duas carruagens em falta, o salão dos Ministros e o Salão Restaurante.





O Comboio Presidencial entrou ao serviço da República em 1910, aproveitando carruagens usadas pelo Comboio Real adquiridas na fase final da monarquia em 1890. Estas sofreram uma renovação profunda no final dos anos 30, tendo sido acopladas mais duas carruagens e um furgão.
O salão restaurante (SRyf 2), o salão da comitiva e segurança (Syf 3) e o salão dos Ministros (syf 4) foram produzidos em 1890 pela casa francesa Désouches David & Cie.
As restantes carruagens da composição datam de 1930. O furgão (Dyf 408) foi fabricado na Bélgica pela Baume & Marpent. Por sua vez, a carruagem dos jornalistas (A7yf 704) nasceu pela mão do atelier Belga, Nicaise & Delcuve e o salão dos chefes de Estado pela alemã Linke-Hofmann Busch.

Esta renovada composição manteve-se em actividade entre os anos 40 e 70 do século XX, tendo servido os presidentes da república do Estado Novo, nomeadamente, Óscar Fragoso Carmona, Craveiro Lopes e Américo Tomás nas suas principais deslocações.
A sua utilização possuía vantagens na época relativamente ao automóvel, uma vez que a rede de auto-estradas era ainda escassa e as sinuosas estradas do interior não permitiam uma cómoda viagem. Além dos compartimentos individuais onde os convidados podiam viajar tranquilamente ou dormir, ao longo de toda a composição há diversos espaços que permitiam reunir ou debater.
Destacava-se ainda ao permitir refeições a bordo servidas num ambiente de luxo, reduzindo a velocidade da marcha durante a sua realização para tornar mais cómoda a refeição. Na eventualidade de não ser possível o regresso a Lisboa no próprio dia, parte dos compartimentos são convertíveis em quartos e os lençóis eram transportados em caixas especiais. No entanto, as carruagens nobres estavam reservadas à comitiva do comboio Presidencial e a tripulação dormia no furgão, em enxergas improvisadas enquanto, durante a noite, a Guarda Nacional Republicana vigiava de perto o Comboio Presidencial, conforme apurou o FMNF durante a recolha de informação acerca do passado da composição.
Nos anos 60, o comboio tinha uma tripulação afecta em permanência de dezoito elementos: um inspector, um serralheiro, um electricista, dois condutores de carruagens, um revisor, um revisor de material, um maquinista, dois inspectores de tracção, dois cozinheiros, dois ajudantes de cozinha e quatro empregados de mesa.


O projecto Passeios Presidenciais - Conservação e Restauro dos veículos afectos ao Comboio Presidencial teve um custo total na ordem de 1,5 milhões de euros e foi candidato a apoios do PIT - Programa de Intervenção do Turismo, do Turismo de Portugal e do QREN/Programa MaisCentro/Redes para a Competitividade e Inovação.

O processo de recuperação envolveu o restauro integral das seis carruagens que incorporaram o Comboio Presidencial e permitiu devolver a última imagem conhecida que o comboio ostentou quando circulou na função para o qual foi concebido. Para a sua realização, foi necessário um moroso e complexo trabalho de pesquisa, uma vez que se procedeu à conservação e restauro de todo o património integrado, nomeadamente à reprodução fiel dos interiores, revestimentos, equipamentos e reprodução de alguns dos objectos em falta em função dos modelos existentes à época.

Desde 2009 que a fundação tem realizado paralelamente um exaustivo trabalho de investigação, que permitiu conhecer o mais profundamente possível o passado desta emblemática composição. Esse trabalho permitiu concluir que este “era um comboio bastante vigiado”, mas poucas foram as cartas impressas encontradas que permitissem saber quais os percursos utilizados.
No entanto, sabe-se que uma das utilizações deste comboio realizou-se entre 16 e 18 de Dezembro de 1967 e serviu de apoio à viagem presidencial do Almirante Américo Tomás até à Guarda, para assistir à cerimónia de inauguração das obras de aproveitamento hidroeléctrico (barragens de Aldeadávila e Bemposta) do Douro Internacional, tendo aí permanecido três dias.
À saída de Lisboa, a tracção foi assegurada pela locomotiva eléctrica 2552, tendo provavelmente em Coimbra ou Pampilhosa trocado a tracção para uma locomotiva movida a Diesel, uma vez que à época a Linha da Beira Alta não se encontrava electrificada.
Uma das últimas utilizações desta composição terá ocorrido a 30 de Julho de 1970, quando acompanhou o longo cortejo fúnebre de António de Oliveira Salazar, desde uma estação improvisada em frente aos Jerónimos até Santa Comba Dão, onde foi sepultado.

Refira-se que o restauro da composição, abrange apenas o parque de carruagens, uma vez que a composição não tinha nenhuma locomotiva ou série destacada em exclusivo. O facto da locomotiva Diesel English Electric 1805 ter sido transportada para Contumil com o comboio Presidencial para ser objecto de restauro, poderá ditar que a prazo, a sua recuperação possa ser terminada de forma a que esta composição possa utilizar uma locomotiva do espólio museológico do FMNF. No entanto, não sendo o FMNF um operador ferroviário, a condução e operação terá de contar obrigatoriamente com a CP.


A viagem ligou as estações do Entroncamento e Vila Nova de Famalicão em cerca de cinco horas, com paragem comercial em Aveiro e paragens técnicas em Pampilhosa e Porto-Campanhã.

A partida realizou-se pelas 9:30 quando a composição composta por cinco carruagens e um furgão e traccionada pela locomotiva English Electric 1413 inicia a sua marcha rumo ao Norte do País. Apesar da viagem se realizar a um ritmo inferior em relação aos restantes comboios que circulam na linha do Norte, a viagem está longe de ser maçadora. O requinte dos materiais aplicados neste comboio transformam a viagem numa experiência única, onde nenhum pormenor foi esquecido, ou não tivesse sido este comboio concebido para o transporte de altas individualidades do Estado.

Os passageiros convidados pela FMNF embarcaram na estação do Entroncamento, enquanto que o município de Vila Nova de Famalicão levou até à estação de Aveiro dois autocarros que transportaram os seus convidados para esta viagem que decorreu ainda no âmbito da fase de ensaios do modelo de exploração do Comboio Presidencial.
A lista de convidados contou ainda com os vencedores do passatempo fotográfico realizado pela Fundação Museu Nacional Ferroviário, garantido desta forma 10 lugares adicionais destinados aos entusiastas, além da presença de membros convidados pertencentes a associações de entusiastas.

Paulo Cunha, presidente da edilidade Famalicence argumenta que "a iniciativa serviu para demonstrar, de forma simbólica, que Vila Nova de Famalicão tem um enorme potencial do ponto de vista ferroviário e todas as condições para que os seus pólos ferroviários (Lousado e Nine) tenham cada vez mais dignidade e respeitabilidade no conceito museológico nacional", defendendo ainda "que a via-férrea é uma via de transporte essencial no presente e no futuro". É ambição que "rapidamente o comboio volte aos carris numa dimensão turística, permitindo através da viagem de comboio, uma viagem na história e no tempo e recriar factos históricos relevantes aliados a um conforto ímpar".

Por sua vez, Jaime Ramos, presidente da Fundação Museu Nacional Ferroviário, acredita que o interesse demonstrado no comboio Presidencial "seja duradouro ou não fosse o comboio Presidencial um dos ex-libris do património ferroviário Português. Neste sentido estamos certos do seu contributo para uma maior afirmação e credibilidade do património ferroviário português prevendo-se a sua exploração plena enquanto produto turístico para breve".

A iniciativa, baptizada Comboio das Artes contou ainda com animação a bordo a cargo de uma dupla de actores do grupo de teatro Andaime.
O actor João Teixeira vestiu a pele de Camilo Castelo Branco, ilustre escritor, romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor que viveu nos últimos anos da sua vida em São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão.
Em 1892, dois anos após o falecimento de Camilo, nasce em Santa Lucrécia do Louro, freguesia do concelho de Famalicão, Artur Cupertino de Miranda, que viria a ser banqueiro e empresário em diversos ramos de actividade, também esta figura retratada ao longo da viagem.

A guitarra Portuguesa esteve também presente ao longo de toda a viagem, através do projecto ‘Guitarras à parte’ do multifacetado grupo de teatro Andaime, tendo ainda ecoado o som das guitarras na plataforma da estação da Pampilhosa durante os cerca de 30 minutos de paragem técnica que a composição realizou.

A paragem seguinte seria Aveiro, para embarque dos convidados da Câmara Municipal de Famalicão, nos quais se destaca Paulo Cunha, presidente da Câmara promotora do evento.



Alcançada a estação de Lousado, os convidados foram conduzidos ao pólo museológico do FMNF, onde além de apreciarem o magnífico espólio que ali está patente, tanto em comboios de tamanho real como a enorme maquete à escala 1:87 criada por um grupo de modelista da região do Porto, foram surpreendidos por momentos musicais protagonizados pela Escola Profissional Artística do Vale do Ave.
Após o almoço, houve ainda oportunidade para uma visita à Fundação Cupertino de Miranda, onde os convidados visitaram as exposições permanentes e temporárias com o privilégio de serem guiados pelo mestre Cruzeiro Seixas, actualmente a residir no concelho de Famalicão.



A composição deslocou-se em vazio entre Lousado e Famalicão, onde esteve disponível para visita entre as 15 e as 17 horas, retornando posteriormente à estação de Lousado onde iniciou a viagem de regresso ao Entroncamento.

No âmbito do Projecto de conservação do comboio Presidencial e com o apoio de três autarquias, foram delineadas quatro viagens de promoção do produto.
Em Dezembro de 2013 realizou-se a estreia da composição, numa viagem entre Lisboa-Santa Apolónia e o Entroncamento.
No dia 27 de Março, a estreia a norte do Entroncamento e para o Dia dos Museus, a 18 de Maio, está prevista uma viagem até Vila Velha de Ródão com o apoio da Câmara Municipal do Entroncamento.
A quarta viagem deverá realizar-se até ao Algarve em data a anunciar.
Futuramente é expectável que surja o interesse de promotores privados que dispõem agora de um produto ferroviário de luxo impar no nosso País.

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Actualizado a 30 de Março de 2014 

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