» Transpraia - O Comboio da Caparica



A história do Transpraia remonta a um periodo em que a Costa da Caparica não era ainda um destino de eleição e conhecida um pouco por todo o mundo, pelos seus belos areais. E esse é o principal facto que origina o aparecimento deste emblemático marco turístico. Nos anos 50 surgem dois industriais da região, Canas Cardim e Casimiro Pinto que decidem apostar no turismo.
Surge assim o primeiro projecto para instalar uma linha de caminho de ferro ao longo do areal, ligando a Costa da Caparica ao Cabo Espichel, numa distância superior a 20 quilómetros e que iria colocar fim ao isolamento de toda a orla costeira, bem como dotar a região de um produto turístico ímpar e atractivo.
O ambicioso projecto inicia-se com a formalização da empresa a 8 de Março de 1960, baptizando-a: TRANSPRAIA - Transportes Recreativos da Praia do Sol, Lda, e são iniciados os trabalhos de instalação dos carris e de toda a infra-estrutura.

O Transpraia, também conhecido localmente como mini-comboio da Caparica, percorre pela primeira vez a orla costeira com passageiros a bordo a 29 de Junho de 1960, numa cerimónia com muita pompa, onde marcam presença alguns ilustres, como o Dr. Mário de Figueiredo, presidente do conselho de administração da CP, o Secretário Nacional de Informação e Turismo, Dr. Moreira Baptista, o governador civil de Setúbal e os presidentes das Câmaras de Almada, Sesimbra e Seixal. Cortada a fita inaugural, o padre do Monte da Caparica benzeu o comboio com a animação da Banda da Casa dos Pescadores, e marcava o inicio de uma nova era para a região.
O Transpraia foi sem dúvida um projecto revolucionário e ambicioso e que precede a época de grandes investimentos e
rapidamente conquista a simpatia dos veraneantes, tornando-se bastante popular nos anos que se seguiram, formando longas filas de espera e trazendo para esta atracção algumas figuras conhecidas, o que rapidamente coloca o Transpraia nas bocas do mundo.


No seu trajecto inicial, o comboio partia do centro da Costa da Caparica, próximo da praia do Barbas, em frente ao centro comercial Caparica Oceano, e terminava na praia da Rivieira, uma viagem com menos de quatro quilómetros, mas que já constituía um importante avanço, pois permitia aceder a um conjunto de praias pouco ou nada utilizadas à época. 


 
 

Durante os primeiros tempos, a viagem de regresso da praia da Riviera para a Costa era realizada em marcha atrás por inexistência de placa giratória para inverter a locomotiva. Neste local são também erguidas as oficinas que parqueiam e albergam a manutenção da infra-estrutura e do material circulante, constituidas por um edifício em betão, em tom amarelo onde sobressaem as letras a vermelho TRANSPRAIA. 

Três anos mais tarde, em 20 de Julho de 1963, o comboio atinge a Fonte da Telha, um terminal que viria a ser definitivo, depois de desistido do ambicioso projecto de chegar ao Cabo Espichel. 
Durante mais de 40 anos, esta ligação manteve-se inalterada, correspondendo ao percurso mais extenso realizado pelo Transpraia, representando uma distância de cerca de nove quilómetros de extensão, servindo 20 paragens, das quais quatro podem considerar-se estações pois permitem a realização de cruzamentos e manobras, uma vez que dispõe de duas vias.

Nesta altura as acessibilidades às zonas servidas pelo Transpraia são ainda reduzidas, servindo o Transpraia tambem para a deslocação da população.
Porém, ainda na década de 60 a situação altera-se. Em 1966 é inaugurada a Ponte de Salazar (hoje, Ponte 25 de Abril) e a variante à estrada nacional 377 entre a Costa da Caparica e o centro de Almada (posteriormente baptizada IC20 e mais recentemente A38), com ligação directa à ponte. Estas duas emblemáticas obras fomentam decisivamente a evolução do transporte individual e a expansão urbanística da margem sul do Tejo e com isso o Transpraia perde importância nas deslocações regulares dos habitantes, sem que no entanto a sua função turística tenha decrescido.

As primeiras centenas de metros de percurso ocorrem junto da Avenida General Humberto Delgado, uma das mais importantes artérias da Costa. Após o primeiro quilómetro surge à esquerda o parque de campismo e ao longo de mais um quilómetro acompanham a linha do lado direito, diversas casas e embarcações da pesca xávega, uma actividade característica da região e que se baseia na pesca por cerco, na qual uma das extremidades da rede fica presa em terra, e a outra é transportada por uma embarcação para o mar, originando uma barreira.
Sensivelmente ao quarto quilómetro encontram-se as instalações deste caminho de ferro, acessiveis por via rodoviária através da Estrada Florestal, estrada que acompanha a linha até a zona da praia do Rei.
Daqui em diante, todas as praias tem reduzidas acessibilidades por via rodoviária, sendo ainda hoje o Transpraia a forma mais cómoda de lá chegar.


Porém, em 2006 a Costa da Caparica é assolada pelas obras do Programa Polis e o terminal norte que se situava no centro da vila, na zona mais movimentada, foi deslocado cerca de um quilómetro para sul, para a Nova Praia, paredes meias com o parque de campismo, deixando assim de ser possível o acesso a este meio de transporte junto da zona balnear mais frequentada, uma decisão pouco clara da equipa do programa Pólis e insuficientemente defendida pela edilidade local, que atirou para um local com muito menos visibilidade, aquela que era uma das mais identificativas atracções turísticas da Costa.
Com esta alteração, a linha perdeu a paragem central, resultando, segundo dados publicados pela empresa, numa diminuição significativa do número de passageiros, tendo-se reflectido logo no verão de 2007. Nos últimos cinco anos, o Transpraia passou de uma média de 100 mil passageiros/ano para cerca de 20 mil, colocando em risco a sua existência, estando patente ano após ano, o fantasma do encerramento. 
Apesar dos sucessivos alertas e ameaças, 2012 pareceu ser o mais sério de todos, sendo inclusivé anunciada a intenção de transferir a infra-estrutura para Cabo Verde.

O Transpraia opera durante a época balnear, entre Junho e Setembro, habitualmente entre as 9 e as 20 horas, com uma frequência de 30 minutos. Operacionalmente traduz-se na utilização de três composições, uma vez que o tempo de suporte na Costa da Caparica é de cerca de 30 minutos, permitindo aos veraneantes contactarem com este meio de transporte no seu novo término. Longe do vigor de outros tempos, é hoje em dia particularmente utilizado para acesso a praias mais remotas onde a ligação por estrada é mais difícil, sendo por isso praias menos povoadas, de onde se destacam algumas frequentadas sobretudo por nudistas.

Da Nova Praia à Fonte da Telha, a velocidade raramente excede os 30 quilómetros por hora e a viagem faz-se em cerca de 25 minutos, variando ligeiramente o tempo de acordo com a procura, uma vez que as paragens intermédias, à excepção do local onde se realiza o cruzamento das composições - praia da Sereia - Waikiki - apenas se realizam caso haja embarque ou desembarque de passageiros. 


O percurso actual tem um total de 19 paragens (incluindo os terminais) devidamente sinalizadas e divididas em duas zonas, ocorrendo a mudança de zona na paragem da Praia da Riviera (Paragem 9) junto da recolha e oficinas do Transpraia. 
Em 2013, os bilhetes de uma zona têm um custo de 2,50€ (ida) ou 4,50€ (ida e volta). As crianças pagam respectivamente 1,20€ ou 2,00€. Caso se pretenda realizar a viagem completa desde a Nova Praia até à Fonte da Telha, o bilhete importa em 4,50 (ida) ou 7,50 (ida e volta). Também neste caso as crianças beneficiam de um desconto, ficando o bilhete de ida em 2€ e o de ida e volta em 3,50.





MATERIAL CIRCULANTE

O parque de material circulante é actualmente constituído por quatro locomotivas Diesel, adquiridas em Breman na Alemanha, que entraram ao serviço nos anos 60 e 70.
Todas as locomotivas foram adquiridas à Cristopher Schoter e dispõe de motorização Mercedes-Benz. Apesar da sua avançada idade, a fiabilidade do material é bastante positiva, sendo todo o parque sujeito a uma intervenção de manutenção mais profunda antes da abertura da época balnear.
Na fotografia, temos o posto de condução da actual locomotiva 2, onde é notória a simplicidade dos comandos.

No entanto, a inauguração da linha não ocorre com estas locomotivas. Inicialmente terão existido três outras locomotivas, cujo desenho era
um pouco diferente das actuais, o posto de condução situava-se numa das extremidades e eram ligeiramente mais curtas, e estão presentes no capítulo "anos 60" do video, concebidas pelo mesmo construtor das que actualmente prestam serviço. Estima-se que foram abatidas ao serviço pouco tempo depois da entrada em serviço das actuais locomotivas - anos 70.

No que se refere ao material rebocado, o parque é composto por 20 carruagens, muito embora actualmente o pico da sua utilização não vá habitualmente além das nove carruagens e apenas aos fins de semana. Durante a semana, os comboios são habitualmente formados por apenas duas carruagens atreladas a uma das quatro máquinas Diesel.

Cada carruagem dispõe de oito bancos corridos, que oferecem quatro lugares, abertos lateralmente para acesso pelos estribos laterais exteriores. Nos tempos áureos do Transpraia, o comboio era constituído por quatro carruagens, e mesmo assim era frequente circular com a lotação completa, havendo em alguns períodos desdobramentos, permitindo aumentar a frequência de passagem dos comboios e com isso escoar a grande afluência que se concentrava nos terminais.

O parque é ainda composto por dois vagões abertos, que auxiliam nas tarefas de manutenção da via. Inicialmente, estes vagões eram atrelados a algumas composições, permitindo aos passageiros o transporte de cargas mais volumosas.




INFRA-ESTRUTURA

A via possui uma bitola de 60 cm, enquadrando-se no sistema Decauville em homenagem ao inventor destes sistemas de caminho-de-ferro ultra-estreitos, Paul Decauville.
O carris constituídos por barras de 12 metros de comprimento e pesando 12 Kg por metro, foram adquiridos no Luxemburgo à Colmeta e estão assentes em travessas de betão colocadas directamente sobre a areia, através de tirefonds.
Apesar das constantes manutenções a que é sujeita, a via não esconde o peso dos anos, fruto do rigor dos Invernos costeiros e das elevadas temperaturas a que está sujeita no verão, traduzindo-se num constante bambolear do pequeno comboio.

Além dos términos - Nova Praia e Fonte da Telha, que possuem duas vias e placa giratória para inverter as locomotivas, a linha dispõe ainda de dois locais de cruzamento, embora só um seja actualmente utilizado, e a ele se recorra em todas as viagens, junto à Praia da Sereia - Waikiki.
Os cruzamentos são realizados através de secções de dupla via protegidos no topo por aparelhos de mudança de via. Regra geral, o AMV está direccionado para a linha onde deve entrar e que se encontra livre, ficando o cobrador com a função de alterar a sua posição após a passagem da composição onde opera, de forma a que a próxima composição a necessitar de usar a linha fique com o percurso já preparado, evitando a paragem à entrada.

A inversão das locomotivas nos términos realiza-se através da utilização das placas giratórias accionadas por força braçal dos tripulantes. Actualmente existem 3, sendo duas nos términos e uma terceira junto à oficina, na praia da Riviera.

A Praia da Riviera, junto à foz do Rego, situa-se aproximadamente a meio do percurso operado pelo Transpraia e representa a fronteira entre as duas zonas tarifárias que compõe a linha. Aqui encontra-se um edifício, de tom amarelo, que possui cerca de 800 metros quadrados e onde o acesso realiza-se através de cinco linhas, que permitem não só o parqueamento de todo o material circulante afecto a este serviço, como também o acesso a uma área onde são realizadas as necessárias intervenções de manutenção.
Neste local foi construído praticamente todo o material rebocado que circula actualmente na linha e é aqui que por volta de Fevereiro, todos os anos, se inicia o rotineiro processo de manutenção de todo o material circulante e se inicia a verificação minuciosa de toda a linha, substituindo os carris que necessitem de tal intervenção.



O FUTURO

Devido à intervenção do Programa Polis, até ao momento não foi implementada uma solução que permita fazer regressar o Transpraia ao centro da Costa da Caparica na esperança de recuperar os passageiros e a visibilidade que foi perdendo ao longo dos anos. Um novo interface de transportes públicos estava projectado para arrancar em 2013 e teria ligação não só ao Transpraia como à futura linha do Metro Sul do Tejo, no entanto até ao momento nenhuma obra foi lançada, não se antevendo que venha a realizar nos próximos anos.

Em 2012, noticias davam contam do interesse da empresa detentora do Transpraia em proceder ao levantamento integral da sua infraestrutura e material circulante, transferindo-o para Cabo Verde. No entanto tal não aconteceu e o Transpraia continua durante esta época balnear a deliciar os mais saudosistas e a cumprir a sua função de transporte a quem viaja para as praias da Costa até Fonte da Telha.

Conheça o percurso e as paragens do transpraia e todas as fotografias presentes na galeria


Ver percurso do Transpraia num mapa maior




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