» Eléctricos chegaram a Braga há um século



A história de Braga está em diversos momentos relacionada com a história dos transportes em Portugal. No tempo dos Romanos era conhecida por ser a cidade com mais estradas da Península Ibérica, possuindo uma via com a mesma filosofia das actuais auto-estradas, estabelecendo um percurso rápido, com menos desníveis que os caminhos de então e com várias portagens ao longo do percurso, sendo ainda servida por albergues e áreas para a troca de cavalos. Referida na história como Geira ou Via XVIII do Itinerário de Antonino, ligava Braga à cidade espanhola de Astorga, num percurso aproximado de 320 quilómetros e a sua construção remonta ao século I.

Em 1875, menos de duas décadas após a inauguração do primeiro troço da Linha do Norte, entre Lisboa e Carregado, Braga recebe o caminho de ferro, ficando ligada ao Porto através da linha do Minho, entre Porto e Nine, derivando desta última o ramal de Braga, que se desenvolve-se paralelamente à margem direita do Rio Este e estende-se ao longo de 15 quilómetros, servindo entre outros povoados Couto de Cambeses, Arentim, Tadim e Aveleda.

Em Maio de 1877, as deslocações no centro de Braga são melhoradas, ao ser inaugurada a rede de carros americanos ligando São João da Ponte, Monte d'Arcos e Maximinos ao Bom Jesus. No entanto, este era um meio de transporte com algumas limitações, uma vez que dependia de tracção animal numa linha cujo traçado era bastante exigente sobretudo na íngreme subida do Bom Jesus. Nos dias de maior afluência, a dupla de mulas era substituída por uma parelhas de bois junto à subida para o Bom Jesus, devido ao cansaço dos animais que traziam o carro desde o centro. 

No ano de 1882, Braga recebe um novo meio de transporte, o elevador do Bom Jesus, que vencendo um desnível de 116 metros através dos seus 42% de inclinação permitiu substituir os carros americanos na ligação ao santuário, resolvendo parcialmente o problema de acesso até este local. 
No ano seguinte, são adquiridas na Suíça pequenas locomotivas a vapor destinadas a operar entre o lugar dos Peões e o elevador do Bom Jesus, que se estreiam a 17 de Junho de 1883 às quais se atrelam as diversas carruagens do carro americano vencendo com maior eficiência a exigência do desnível que conduz ao acesso inferior do elevador do Bom Jesus.

Porém, quer o carro americano, quer a locomotiva a vapor começaram a acusar o peso da idade e há uma premente necessidade em agilizar o transporte, que dia após dia ganhava cada vez mais passageiros. Em 1895 o Porto implementa a tracção eléctrica que permitiu substituir os velhos carros americanos e expandir a rede e Lisboa seguiu-se em 1901. 
Aproveitando a inovação tecnológica que permitiria melhorar a produtividade e eficiência dos transportes de Braga, a Companhia Carris de Ferro de Braga solicita a 28 de Novembro de 1905 autorização à Câmara Municipal para operar tracção eléctrica, em detrimento da tracção a vapor e de carros americanos que se revela progressivamente desfasada das necessidades de mobilidade dos cerca de 60 mil habitantes. 
Em 1907, a 18 de Abril, a Câmara Municipal abre concurso para a tracção eléctrica e a 16 de Julho é apresentado na Câmara o parecer da Comissão que elaborou o projecto do contrato de tracção eléctrica.  Em 2 de Junho de 1910, sob a direcção do Engenheiro Municipal e com a colaboração do Capitão Lopes Gonçalves, foram iniciados os estudos da tracção eléctrica até ao Bom Jesus. 

No entanto todo o processo se prolongou no tempo, devido à instabilidade gerada pelo fim da monarquia e o inicio da república. 
Na sessão camarária de 17 de Outubro de 1912, foi apresentado um documento intitulado “Proposta sobre melhoramentos urbanos desta cidade”, da autoria de Manoel Assis, militar na reserva. No programa, que ficou conhecido por “Programa Assis”, encontravam-se várias propostas especialmente destinadas a higiene, como a construção de um balneário municipal, mas também outros ramos, como os transportes; com efeito, propôs que o sistema dos eléctricos se estendesse num circuito desde a estação ferroviária, pelo Campo da Vinha - Bom Jesus - Sameiro - Santa Marta - São João da Ponte - Praça da República, entrando na rede viária da cidade. 

Só em 1913 o projecto seria executado, ao ser contratado em Fevereiro um engenheiro alemão encarregue de executar em dois meses o projecto da mais exigente linha.  O arranque oficial da conversão para tracção eléctrica é materializado a 22 de Março de 1913 com a contracção pela Câmara de um empréstimo de 550 contos e em edital de 15 de Julho do mesmo ano são aprovadas as bases do concurso para a instalação da tracção eléctrica.
No mês seguinte, o Presidente da Câmara Lopes Gonçalves, acompanhado do Engenheiro Municipal reúnem-se em Coimbra com os Serviços Municipalizados de Coimbra para estudar a municipalização de vários serviços concentrando vários pelouros, como o fornecimento de água, limpeza, fornecimento de energia eléctrica e a tracção eléctrica.

1914 é o ano que fica para a história de Braga como o da implementação efectiva dos carros eléctricos. É lançado o concurso para a obra da central de tracção eléctrica e a empreitada geral para o fornecimento e assentamento de cabos. Nos primeiros dias do ano chegam a Braga dois engenheiros Ingleses para acompanhar e coordenar a instalação do sistema eléctrico que iria fornecer energia aos novos veículos e os trabalhos iniciam-se pela Rua dos Biscaínhos, Campo da Vinha e Rua dos Capelistas, num troço pouco superior a 600 metros. (ver imagem)

Em Maio de 1914 já os trabalhos se encontravam em avançado estado e Lopes Gonçalves, presidente da Câmara, desloca-se a Lisboa para convidar o Presidente da República para assistir à inauguração da tracção eléctrica, convite que não foi aceite. 

A 19 de Outubro de 1914 são oficialmente colocadas ao serviço da população as linhas 1 e 2 substituindo os carros americanos e a tracção a vapor.

Nos anos 20, a linha 1 e 2 são convertidas numa só linha, tornando a linha 1 numa carreira estruturante do serviço de eléctricos, ligando a estação ferroviária de Braga à entrada do elevador do Bom Jesus, servindo toda a área central da cidade, como o Campo da Vinha, a Avenida Central ou a Rua de S. Vítor, num percurso que estende por quase seis quilómetros.

Por sua vez é criada uma nova linha 2, com cerca de metade da extensão e que estabelece a ligação entre o Largo de Monte Arcos ao Parque de São João, intersectando a linha 1 na Avenida Central e percorrendo a rua das Águas, presentemente denominada Avenida da Liberdade.
A rede alcançava cerca de oito quilómetros e tinha ao dispor 11 carros eléctricos e 13 atrelados com bitola de 900 milímetros, a mesma utilizada em Lisboa.
Os carros eléctricos tinham a particularidade de possuírem colectores em arco em oposição aos colectores por trólei (varas) dos sistemas do Porto, Coimbra, Lisboa e Sintra. 

Uma terceira linha foi ainda projectada para ligar o centro de Braga à vila do Prado, no entanto a opção recaiu na escolha do autocarro anos mais tarde para realizar esta ligação.


 

No video são visíveis alguns momentos do quotidiano dos carros eléctricos. A primeira cena acontece na escadaria do Bom Jesus, onde nos momentos seguintes se aproxima um carro eléctrico com atrelado. Este local fica junto ao acesso ao elevador do Bom Jesus, tendo sido término da carreira 1 de eléctricos.


No final do video há o aproximar do elevador do Bom Jesus ao término que se situa na cota inferior.



 


Nos anos 30 há uma significativa redução do preço dos bilhetes para viajar no carro eléctrico, permitindo desta forma captar passageiros que de outra forma não utilizavam o serviço, uma vez que era considerado significativamente caro para o nível de vida dos Bracarenses. Esta redução inverteu a tendência de prejuízo do serviço  e garantiu a continuidade da operação de carros eléctricos na cidade. 


A partir de 20 de Junho de 1948 a operação dos transportes urbanos é partilhada entre o carro eléctrico e o autocarro, com a criação de uma nova ligação entre o Bairro Duarte Pacheco e o Aeródromo de Palmeira. A partir desta altura o autocarro ganha notoriedade e a rede transportes urbanos expande-se.

Ao longo das décadas de 50 e 60, o tráfego automóvel foi ganhando expressão, ao mesmo tempo que a rede de carros eléctricos permanece com as mesmas ligações quase desde a sua implementação. Os eléctricos acusam os mais de 40 anos de serviço na cidade, apresentando sinais evidentes de degradação. Surge a necessidade de melhorar a oferta de transporte urbano, no entanto a disponibilidade financeira para investimentos de vulto era reduzida e a Câmara Municipal de Braga sendo informada que a cidade alemã de Heilbronn precocemente desactivou a sua rede de troleicarros (1951 - 1960), decide adquirir a totalidade de material fixo, bem como a quase totalidade do material circulante que estava afecto a esta rede. 

A 28 de maio de 1963, data comemorativa dos 35 anos do levantamento militar que tinha ocorrido nesta cidade e do qual resultou o Estado Novo é oficialmente inaugurado o sistema de Troleicarros de Braga, substituindo definitivamente a rede de carros eléctricos na cidade, que completaria no ano seguinte meio século de existência. 
Os diversos equipamentos de apoio aos eléctricos são desactivados e desmantelados, perdurando alguns troços com carril até meados dos anos 80, curiosamente posterior à existência do meio de transporte que o substituiu, que foi desactivado em Setembro de 1979. 
(na foto, catenária de troleicarro e eléctrico coabitam durante a fase de testes do novo sistema de transporte) 


Este ano comemora-se o centenário da sua chegada à cidade dos Arcebispos, no entanto ao contrário de outras redes que existiram pelo mundo fora, Braga não conserva nenhuma secção de carril, de catenária, nem nenhum carro eléctrico, o mesmo acontecendo com os troleicarros, seus sucessores. Nos últimos anos, o debate cívico em torno dos transportes públicos aborda ciclicamente a necessidade de uma ligação ferroviária ligeira entre Guimarães e Braga e mesmo dentro do concelho de Braga destinada a fomentar o uso do transporte público e reordenar o tráfego automóvel, numa cidade onde nas últimas décadas explodiu o crescimento urbanístico e a aposta em vias de comunicação rodoviárias.


 
Actualizado a 5 de Janeiro de 2014 


Bibliografia


CAPELA, José Viriato, e NUNES, Henrique Barreto. Braga: Roteiros Republicanos. Matosinhos: Quidnovi - Edição e Conteúdos, S. A., 2010. ISBN: 978-989-554-721-0. pp. 128

António RESENDE (ASPA): “Entre Aspas” Diário do Minho (1989.10.02). Transcrito, com notas e atualizações, em “Os elétricos de Braga, ”(sic!)“ foram inaugurados há 100 anos” Forum Cidadania Braga (partes: I, II, III, e VI)




 
 
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